
Sempre acho tempo pra ficar caroçando livros e discos. Caroçar, no alfabeto de criança, significava entrar numa loja, consumir os produtos e não comprar nada. Folhear um livro, ouvir um disco e, horas depois, sair inescrupulosamente de mãos abanando. Uma espécie de facção do terrorismo cultural. Começa na molecagem por falta de grana, mas não vejo mal em continuar, embora não tenha consultado os vendedores sobre o assunto. Sim, porque por mais que hoje eu tenha aprendido a passar no caixa, caroçar tem um ar diferente. Eu diria até flâneur – expressões estrangeiras dão peso a argumentos meia-boca. O importante é que cada fuçada é uma descoberta. Cito algumas.
Quadrinhos têm o formato perfeito pra se caroçar. Tempos atrás li “Vincent e Van Gogh”, do ilustrador iugoslavo Gradimir Smudja. Tiração de sarro impagável em cima do Van Gogh, este um artista medíocre que assinava quadros extraordinários – pintados secretamente por seu talentoso gato. Leia em duas horas afundado em algum pufe da livraria, termine e devolva na estante na maior cara de pau.
Contos também são ótimos pra uma boa e satisfatória caroçada. Uma de minhas vítimas recentes, “Achei que meu pai fosse deus”, histórias reais escritas por americanos comuns e compiladas pelo Paul Auster, algumas antológicas. O formato breve favorece, mas nada impede que você parta para um nível avançado de cara-dura e leia um romance. Aliás, alguns parecem escritos pra serem caroçados. Na minha opinião faz mais sentido ler “Pergunte ao Pó” assim do que comprá-lo, um capítulo por vez, em visitas diárias à livraria. E ainda por cima marcando cada interrupção com a orelha do livro. Borges, Quinos, Fonsecas, a lista vai longe, mil e uma Sherazades em cada prateleira.
Tentei por vezes achar argumentos ideológicos pra justificar a caroçada, construir aquele, digamos, arcabouço filosófico. Por que não ler de graça na Biblioteca? Ao longo do tempo, formulei hipóteses. Aos 19 anos meu lado esquerdista tosco (duas esquerdas moravam em mim, a progressista e a tosca) se comprazia em sacanear as grandes lojas, hay que ler e não dar lucro. Se fosse a Fenac, estrangeira, melhor. Depois o lado sedentário foi ganhando meu afeto: a Biblioteca é longe e livrarias estão à mão, no meio do caminho sempre tem uma. Querendo dá pra tirar até uma explicação ayurvédica. Mas talvez seja só nostalgia do caroçar de moleque.
Seja como for, não pretendo parar. Alguns poderão objetar dizendo que, no final, não estou sacaneando a livraria e, sim, o próximo dono da obra. Vamos encarar da seguinte forma: se você for o futuro proprietário, só está me emprestando o livro antes de comprar. Agradeço com toda sinceridade.