Falcão branco em perigo
Na TV, um drama se desenrola. Americanos ilhados na Somália metralham pelas favelas de Mogadiscio. Uma luta desigual. Negros com camiseta do Mickey contra loiros com coletes blindados, jipes blindados, helicópteros blindados. No final, os 18 americanos da paz viram heróis mortos. E 836 somalis seguem o que sempre foram, só que agora crivados de balas. Fim.
Foi-se o tempo em que o pequeno era o coitado. Que o gigante Golias era o monstro e Davi, o herói. Agora é a lei da pirâmide invertida. O de cima é que está em perigo. O de cima é que sofre. O grande que se sacrifica pela liberdade do pequeno ignorante. O patrão se entorta para pagar o direito dos empregados. Madames saradas têm que se empanturrar de bolinhos em seus chás em benefício dos esfomeados. Ó,dó! Dirigir uma Mercedes pelas ruas virou uma dificuldade! Usar Rolex, um risco de amputação.
Outro dia, um tal de Buiú assaltou a casa do Antônio Ermírio de Moraes. Tristeza! Os ricos são uma minoria ameaçada. Micos-leões-dourados no lixo da sociedade. Vamos fazer uma reserva-santuário no Morumbi, voar de helicóptero sobre a negrada e proteger com cerca elétrica e porta-aviões a metade asfaltada do mundo.
Vejam os pobres dos americanos. Desde o 11 de setembro tiveram que gastar um trilhão de dólares em defesa. Um trilhão! Acho que, se houvesse uma invasão espacial, a
defesa sairia mais em conta. Afinal, os gringos não precisariam inventar o poder de fogo do inimigo. O fato é que os americanos precisam se defender. Para isso,
bombardearam o Afeganistão com bombas inteligentes que custam o mesmo que uma Ferrari de ouro. Imaginem cascatas de Ferrari caindo do céu para esmagar casas de
barro!? Depois dizem que Salvador Dali era surrealista.
Se o bombardeio fosse inteligente mesmo, eles lançariam escolas, postos de saúde e esperanças em cascata.Aposto que assim Bin Laden já estaria pendurado no Times Square. Mas não, a América tem gasto um trilhão em bomba, bala, aço e documentários que mostram o sacrifício do pobre americano.
Hitler era um filho da puta, mas pelo menos não se fazia de coitado. Dizia o “Bigodinho”: “Eu quero invadir essa porra da Polônia, mandar os judeus para o forno, escravizar os polacos nas minas de carvão e fazer festa do chope com canecas de crânios”. Homicida, mas honesto.
Hoje, no Iraque, guerreiros hightec prendem e arrebentam, torturam como na Idade Média e dão tchauzinho para a CNN. Na TV, dizem que lutam pela liberdade. Bah! Liberdade de deixar o petróleo jorrar livre para dentro do tanque de gasolina do SUV do tiozão. Liberdade é ter o monopólio no Brasil. Liberdade é viver uma vida blindada, acima do bem e do mal, posando de benemerente da humanidade.
Honesto era o gigante Golias e honesto é o pequeno Buiú. Perguntado sobre por que invadiu a mansão
de Antônio Ermírio de Moraes, podia chorar o abandono paterno, a falta de educação, desemprego, fome e
o azar de negro, mas simplesmente respondeu: “O muro era alto, mano. Deu vontade de ver os ganhos que tinha lá”.
Johnny Pinguela







