14 de Novembro de 2006 às 23:07
· Johnny Pinguela
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Na volta para casa um trem atropela meu devaneio. O apito forte avisa que o
trem vai passar e tudo mais vai parar. O trânsito vai parar e nenhum carro,
moto, ônibus, caminhão, trator ou tanque de guerra vai reclamar. O trem se
aproximando é maior que tudo. As pressas, as fomes, as neuras, as nóias, as
birras e os choros têm que esperar o trem. Mesmo as minhocas em minha cabeça
param e eu, ansioso como um menino, espero pela centopéia de aço.
Pela curva, lá vem ele. Grande, vermelho, sensacional. Trens são uma
manifestação da grandeza do homem. Uma coisa enorme, forte, que funciona e
não faz guerra. No comando do colosso, um homem simples e pequeno faz tudo.
Dirige, apita, freia, se agiganta. Na infância, por algum tempo, quis ser
maquinista. Depois quis ser astronauta, mas no final voltei ao meu sonho no
trilho do possível.
Como um sonho realizado, o trem chega a mim. O coração se alegra e, num
gesto infantil, minha mão se ergue, e a mágica acontece mais uma vez. Eu
aceno. Como quem acena a um amor ou a um amigo de bar, digo “olá” para o
monstro vermelho sujo de fumaça e óleo diesel. De onde vem esse impulso de
acenar não sei. Talvez seja a lembrança de ver meu pai partindo. Ou quem
sabe de ver o menino do Cinema Paradiso indo esquecer o velho amigo e o
grande amor.
Enquanto o gigante passa, percebo que não estou só no gesto indecifrado.
Crianças acenam de alegria pura. Velhos acenam de saudade genuína. Até onde
vão aqueles trilhos no olhar senil? Idas à capital, amores, estudos na
Federal, doença terminal, Brasil gigante?
Hoje tudo é um adeus… Os vagões não carregam a grandeza de outrora. Seus
passageiros agora são grãos para chineses, minérios para japoneses e
pichações para nossos olhos cansados de ver sujeira. Mas o trem, indiferente
como um rio de ferro, segue seu curso. Me lembra coisas que pensamos não ter
fim. A juventude, o primeiro amor, a força das locomotivas.
De repente, tudo passa. E meu caminho desimpedido aparece silencioso e sem
graça. Mas antes de seguir os trilhos tortos e duros dou um último aceno
para o maquinista lá adiante. E, mesmo ocupado como um astronauta, ele
retribui o gesto com um apito gigante. Foi para mim? Claro que sim!!! Sigo
em frente. O dia valeu. Um sonho apitou para mim.
Johnny Piguela. johnnypinguela.zip.net