
Faz dois anos. Um dia parei de correr atrás do pão-nosso e comecei a passar
mel nele. Assim, escrevi o meu primeiro texto meio sem saber. Fui mandar um
e-mail próximo para um amigo distante. Queria contar uma história sobre
envelhecer, mas no meio do relato brotou uma idéia e, pra alegrar, coloquei
Sônia Braga no enredo.
Sabem, não estava nem um pouco feliz com minha novela na época. Vivia longe
de meu filho e esposa. Trabalhava, ou melhor, me enterrara num porão, dormia
de favor no apartamento de um morto e na madrugada insone pensava em me
juntar ao proprietário. Por sorte, antes de virar finado, virei Pinguela.
Não feliz com a realidade, inventei uma para mim. Escrevi os primeiros
textos quase como quem psicografa um pedido de socorro. Os temas eram
alegres, vivos, escrachados, leves como deveria ser minha vida. Falava de
coisas várias, como Sônia, porcos, bundas, mineiros soterrados, mas em cada
um havia uma mensagem de luz no fim do túnel. Eu não era só um fodido num
porão. Eu não era um casamento no fim. Um pai longe do filho. Uma
assombração de mim mesmo. Eu escrevia.
De lá para cá, muita coisa aconteceu. O que começou com um e-mail para um
amigo virou mais de 500 crônicas, blog, coluna na VIP, figura fácil em boca
sorridente. “Pau neles, Pinguela!” Percebi que, escrevendo, eu sou melhor.
Menos porco-espinho social e mais agulha na ferida. Um bêbado me chamou de
herói de classe operária. Uma louca, de irmão. Outro retido, de cuzão de
merda. Entre um e outro, tento ir ficando melhor na foto.
Voltei a Curitiba, ao casamento, ao “de bem comigo”. Há dois anos escrevia
um texto por semana, hoje são quase quatro. Escrevo sobre tudo que gosto e
do que não gosto. Como aqueles loucos que implicam com quadros tortos na
parede, tento pôr esse meu mundo no esquadro. Achar poesia no móvel usado,
simpatia no cara chato, bunda boa na falta de assunto e Deus em entrelinhas.
Meu pastor é um texto rascunhado num papel amassado. Nele, como um velho na
cadeira de balanço, me entendo e me embalo.
Outro dia vi um filme bom. Um cara inocente é condenado injustamente à
prisão perpétua. Sua existência será conviver com gente presa, carcereiros
ruins, um diretor canalha, barras de aço frio e muralhas de pedra bruta. No
primeiro dia da pena, o cara arruma uma colher. Vinte anos de rotina e
brutalidade se passam e uma manhã o cara desaparece de sua cela. Ninguém
sabe para onde foi o prisioneiro. Até que rasgam um pôster de mulher bunduda
na parede e, para espanto geral, ali na rocha escura se vê um longo túnel
para a liberdade.
Ontem um camarada que me conhece pouco e sempre me vê escrevendo em toalhas
de papel, caderninhos e guardanapos me perguntou:
– Pinguela, o que você tanto escreve, porra?
Respondi ao grosseirão:
– Não estou escrevendo.
– Não?
– Cavo um túnel com colher de papel.