Arquivo de Julho de 2007

Relaxe, goze e morra.

bundabrasil - bundabrasil

Acordei hoje com retrato fiel do meu país na televisão. Liguei na Band Sports e um jogo de vôlei rolava na praia de Copacabana. Brasil versus Cuba. Bonitas as brasileiras e altivas as cubanas. O cenário, como as moças de biquíni verde-amarelo, também era lindo. Meu país é deslumbrante de belezas e de recursos. Gera riquezas mil, tem palmeiras altas, cantos de sábia de ouro. No meu país, muita coisa para alguns vai muito bem. O transporte aéreo, por exemplo, cresce a taxa de 12% ao ano, coisa que nem a China tem. No vôlei, as jogadas do meu país vão bem. O Brasil pandeiro e malandro vai vencendo as cubanas guerreiras. Entretanto, no áudio, o comentarista diz que o número de vítimas no solo é ainda incerto. Ontem, meu país ganhou diversas medalhas de ouro e às 18h47 da tarde, um Airbus da TAM explodiu como num filme de Hollywood. Até nas tragédias meu país faz bonito. Há dez meses, dois aviões novos bateram sobre a selva e agora um explode em plena avenida 23 de Maio. O presidente do meu país disse que queria hora e dia para dar um fim ao problema da aviação. Isso foi há uma caralhada de atrasos, raspão no céu, apagão no radar e derrapagens até no piso seco. Agora um avião entrou num prédio no meio da maior cidade do meu país e a culpa pela morte de 200 inocentes pode acabar caindo nas costas do Bin Laden, que não tem advogado. Meu país fez um PAN, tem planos de grandeza, pensa em decolagem de lucros mas não asfalta corretamente pistas de pouso. O Aeroporto de Congonhas é um porta-aviões encalhado num mar de prédios e sua pista nova é lisinha como a bunda das modelos. Meu país torrou 3,7 bilhões de reais nos Jogos Pan-americanos. Também gastou meio bilhão na remodelação dos terminais, estacionamento e lojinhas de Congonhas e a cabeceira da pista segue debruçada sobre avenidas congestionadas de gente mansa. Uma cubana grita e dá uma cravada. A brasileira tenta pegar e a bola explode no fundo da quadra. O jogo embola mas eu não assisto o final, bem como as cenas do corpos carbonizados. Beijo meu filho ainda dormindo e vou buscar por nosso pão. A mãe dele está em viagem a trabalho em São Paulo e não sei como voltará para Curitiba. No escritório, todos estão meio que incomodados com o acidente e com o presidente, mas deixa pra lá. Todos temos telefones e contas a atender. À noite tem novela e boletim do PAN. Com sorte, o Brasil ganha de Cuba e a Camila Pitanga apareçe de biquíni. Como diz uma alta autoridade do meu maravilhoso e lindo país, o negócio é relaxar, gozar e, com sorte, morrer de velhice. Eu gosto de bunda, mas não na forma de um país.

Johnny Pinguela. 18 de julho de 2007.

johnnypinguela.zip.net

Comentários (2)

Cavalo louco

sirley - sirley
Se tem uma coisa que acho legal no sistema prisional é o cavalo louco. Sabe como é? Um maluco explode o muro, ou rouba uma betoneira e arregaça o muro, ou o muro cai de podre. O certo é que do nada se abre um rombo na muralha. E entre barulho, fumaça, guardas cagados e diretor atônito, a manada de detentos sente o cheiro de liberdade e grita “cavalo louco”! “Cavalo louco”! “Cavalo louco”!

Sem grandes planos de fuga. Sem helicópteros. Sem esperança na condicional, a turma monta no alazão de batalha pela vida e corre. Cem, duzentos, zilhões de loucos correndo para cima de um guarda cegueta armado com um fuzil automático. Quantas balas no fuzil? Sabe-se lá! Cavalos não contam balas, apenas correm. Correm pela racha mais linda que a da modelo de folhinha. Correm pela ladeira das possibilidades. Correm para o horizonte sem barras de aço. Liberdade para o ladrão! Liberdade para o traficante! Liberdade para o assassino! Liberdade para o culpado sem advogado. Liberdade para o inocente sem parente influente. Todos vestidos de suor e planos correm para desfilar na passarela da vida. Todos correm para pisar na pastagem do mais verde do mundo, mesmo que por apenas um passo antes do tiro na testa.

Às vezes, penso que esse sujeito de bom comportamento chamado de brasileiro devia dar uma de cavalo louco. Já imaginaram? Às 10h25 de uma segunda-feira, um embalador do Supermercado Barateiro explode um saco de papel e a aposentada enforcada no banco BMG grita “cavalo louco”, e todo mundo sai correndo para o barato da Daslu. O estudante de periferia corre para a USP. O pinguço invade a adega. O manobrista foge com a Ferrari. Empregadas socam o pitboy. O morro desce. O Brasil vira uma ilha de caras felizes.

Revolução? Nada! Uma corrida desesperada sem ideologia de quem cansou de pastar do lado ruim da cerca. Trabalhar, ter bom comportamento, fazer Telecurso, costurar bolas, devolver a carteira do turista endinheirado e mesmo assim seguir apanhando de filinho de papai e vendo Renan Calheiros rindo na tv .

Minha amiga Cristiana diz que o Brasil é um comercial de Kolynos. Uns riem enquanto os germes batem a cabeça na barreira anticárie. Cavalos loucos podem ter vida curta, mas têm o sorriso mais lindo do mundo.

Johnny Pinguela

Leia mais em johnnypinguela.zip.net

Comentários (1)