Mesão

Cheguei à porta do bar e um figura me perguntou:
- Veio pela festa?
- Não, vim pelo bar.
O cara meneou a cabeça e abriu passagem. Lá dentro, vejo a burrada.
Espalhados por todo o salão, lá estão eles, dessarumados como cabelos da
Medusa: os mesões. Um em forma de U, outro em C e um menor em forma de
assento agudo. Penso em ir a outro bar, mas fico onde estou. O bar tem chopp
Guiness e os mesões das festas são os donos da noite de sábado, em Curitiba.
Com 87% das mesas ocupadas por plaquinhas de ³reservado², vou para o
reservado à solidão: o balcão.
Do balcão, observo os mesões como braços frios de um polvo chamado
sociedade. Nos mesões, todos são algo mais que um cara no balcão. Todos
conhecem a Giovanna do trabalho, da Pedagogia Manhã, da academia, do Orkut.
Amizades forjadas no Messenger serão sempre mais que o passangeiro ao lado
no coletivo de cada dia.
Giovanna chega e traz uma amiga do peito e o bolo. Quem faz festa com bolo
em bar depois dos 18 não deveria ter 18, deveria ficar sempre fazendo 12 até
se tocar. Mas deixa pra lá o meu amargor. Giovanna está radiante. Tem um
mesão só seu e um relógio no pulso. Olha o mesão, olha o pulso e pensa.
Vinte cadeiras, 22 amigos. Vai faltar lugar? O tempo responde. Chegam um,
dois, um casal com cara de tédio. E o mesão do lado é mais animado. Tem nego
fazendo imitação do Vesguinho e brindes ao patrão caolho.
Giovanna reduz expectativas. Oitenta por cento de ocupação tá pra lá de bom.
Meia-noite bate e Giovanna vai virando abóbora. Um terço do mesão está
ocupado. Se tivesse reduzido suas expectativas a seus amigos-amigos e
solitários desesperados em anestesiar solidão, estaria feliz com seus seis
lugares ocupados. Mas o brilho vazio dos 14 lugares reservados ofusca.
Incomoda Giovanna, a mim e ao dono do bar.
Na ponta oposta, Giovanna perde uma mesa para um casal de namorados. No dia
de seu aniversário, levam um naco de seu coração. Se a turma da academia
aparecer tá branco. Mas eles só têm olhos para suas barrigas de tanquinho e
mesões mais badalados. Giovanna fica cada vez mais em seu canto. A noite
avança e a cara de tédio do casal chama o ³Parabéns². Todos batem palmas,
mas a data não parece ser tão querida. O mesão se desfaz, a festa acaba, o
bolo sobra.
Vida em sociedade é garimpo. Se fizesse um mesão para mim, quantos viriam? É
melhor reservar uma mesa para quatro lugares, levar um Fernando Pessoa amigo
do peito e esperar no balcão. Homens são como bichos. Alguns vivem em
cardumes, rebanhos, matilhas… Outros em pares… Outros, lobisomens. Já
fui fração infeliz de cardume, arara voando feliz a dois por Paris. Agora
uivo na noite de Curitiba. Peço outra Guiness. E eu, no meu reservado, faço
um brinde sincero à minha grande amiga e irmã, Giovanna.
johnnypinguela.zip.net
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Emmanuel Peixer disse,
31 de Outubro de 2007 @ 13:08
_genial!… =) hahahahahahahahahaha
“Giovanna chega e traz uma amiga do peito e o bolo. Quem faz festa com bolo
em bar depois dos 18 não deveria ter 18, deveria ficar sempre fazendo 12 até
se tocar. Mas deixa pra lá o meu amargor.”
Rafael Urban disse,
26 de Junho de 2008 @ 20:14
Muito divertido o texto.
Parabéns!